by: José Silva Évora, 31 de Dezembro 2025

Introdução/ Contextualização

De entre tantos outros aspetos espirituais característicos de todas as sociedades, destaque vai para a música, por representar uma das principais manifestações culturais em todos os tempos e em todas as paragens do mundo. Cabo Verde não foge à esta regra.

 A música cabo-verdiana tem sabido exprimir os fenómenos sociais e culturais do país, ao longo de séculos. Iniciada na Ribeira Grande de Santiago, onde terão chegado as primeiras manifestações musicais de raiz africana, a música acompanhou o percurso histórico do arquipélago, exprimindo as inúmeras vicissitudes por que passou as suas gentes, atravessando fronteiras para hoje constituir uma das bandeiras fundamentais de Cabo Verde no mundo. Com o povoamento e consequente encontro de culturas, europeias e africanas, cada uma com a sua experiência musical, aos poucos estas culturas se fundiram, acabando por dar origem à uma mescla de manifestações culturais, das quais a música, “que acabou por dar origem a géneros fortemente caracterizados e enraizados no seu universo,”[1] considerado como “uma das pedras basilares mais fortes da unidade nacional.”[2] Embora existirem evidências de música sacra já no longínquo período colonial, finais do século XVII- , como nos aponta o Pe. António Brásio ao elogiar a qualidade da música referindo-se especificamente aos cléricos -, a verdade é que nos arquivos pesquisados que deram corpo a este texto existe um relativo silêncio relativamente à esta dimensão da música no Cabo Verde desse período. O mesmo acontece em relação ao período após a independência, altura em que a maioria das referências dizem respeito à música mais erudita. No entanto, deve-se realçar as festas de santos ou de romarias, existentes em todas as ilhas. Estas dividem-se em “Bandeiras,” na ilha do Fogo, “Kola” nas ilhas do Barlavento e “Kolinha” na ilha Brava, festas estas que possuem como uma da suas dimensões uma parte iminentemente religiosa.”[3] Por outro lado, existem certos cânticos que ocorrem no domínio religioso como as “Rezas” e as “Divinas, ” consistindo a primeira em coros com melodias “ligadas a práticas fúnebres, que derivam da tradição da esteira (período de oito dias em que a família do morto nada deve fazer, permanecendo sentada na esteira durante este período de tempo e aí recebe os pêsames),”[4] enquanto as Divinas, que só existem na ilha de São Nicolau, consistem em cântico em coro, espontaneamente, cujos arranjos fazem pensar serem elaborados por algum mestre.  Mais modernamente, no seio da Igreja Católica, tem surgido músicos cujo estilo é iminentemente de cariz religioso, nomeadamente o do Pe Zé Alvaro Borja, para apenas citar este exemplo.

A Música no Período Colonial

Como referido anteriormente, por força do processo de povoamento das ilhas de Cabo Verde, “ritmos e melopeias dos ancestrais rituais africanos incorporaram-se nos cantos profanos e religiosos europeus. Desta interação dolorosa, entre a força do homem branco que impunha a repressão cultural ditada pela sua missão civilizadora e a resistência do homem negro, foram nascendo através dos séculos os diversos elementos culturais crioulos, que hoje formam um universo específico que abrange todas as formas de arte e um leque de manifestações culturais multifacetadas, onde a Europa e a África se encontram intimamente ligadas.” [5]

Foi a ilha de Santiago, a primeira a ser descoberta e ocupada de forma efetiva, a partir da 2ª metade do século XV, onde nasceu uma sociedade dicotómica, composta por dois grandes estratos – o dos senhores e o dos escravos – o palco das primeiras formas de manifestações culturais designadamente musicais.

 Das primeiras manifestações musicais ali havidas, destaque vão para as zambunas, uma das modalidades do batuque que consiste na “conversa de mulher na dança e no discurso;”[6] o batuque, “dança de raiz afro-negra, encontrada em Santiago com características relativamente estáveis, desde pelo menos o século XVIII,”[7] e ao Reinado, processo associado às confrarias religiosas sincréticas, fazendo uma ponte entre esta manifestação cultural, e às Tabancas -, uma festa popular genuinamente africana. Por serem consideradas pelas autoridades coloniais como manifestações gentílicas, foram fortemente reprimidas ao longo de todo o período colonial, como se constata da legislação oficial das diferentes épocas.[8] Apesar disso conseguiram resistir, ao ponto de hoje a Tabanca ser património nacional desde 2019, e desde 2021 o 31 de julho  ser instituido o Dia do Batuque.

Em outras ilhas do arquipélago encontramos registo de músicas também elas muito antigas. No Fogo, por exemplo, de entre outras, destacam-se as cantigas de Ana Procópio; O rabôlo, “expressão mais genuína do folclore musical da ilha,”[9]   a talaia baixo, etc. Nas ilhas de maior vocação agrícola, como Santo Antão e São Nicolau as cantigas de trabalho;[10] o landú, “ chegado em Cabo Verde através dos barcos que aportavam a ilha da Boavista, na sequência do comércio do sal e da urzela,”[11]  e na Brava a música mais erudita graças a contribuição de Eugénio Tavares, no século XIX.

Refere-se ainda  a Sociedade Filarmónica Juventude, criada na Praia em 1864; a Sociedade Recreativa Praiense criada em 1892;  a Sociedade Recreativa Fraternidade e a Filarmónica de Artistas Mindelenses criadas em São Vicente em 1888;”[12] sem esquecer o papel importante desempenhado pela Igreja, tanto na formação musical como no empréstimo de instrumentos, os quais os músicos cabo-verdianos não tinham.[13]

Após o 25 de abril de 1974 houve em Cabo Verde uma explosão cultural, nomeadamente na música, com o surgimento de vários grupos como o Bulimundo e os Tubarões que vieram contribuir para a afirmação da música cabo-verdiana. Nessa altura, surgem novas formas e novos géneros musicais, como por exemplo a morna balada de Renato Cardoso ou a música Serafim, da autoria de Manuel Faustino, demonstrando a indignação do cabo-verdiano com a dominação colonial.

A Música no pós-independência

A independência nacional ocorrida em julho de 1975 trouxe uma nova era também para a música, cujo papel na cultura cabo-verdiana é reconhecida por todos. Na década de setenta inaugura-se uma nova e moderna escola musical voltada às origens, com a contribuição de vários músicos e grupos musicais nos mais diversos estilos.

Em 1976, a Emissora Nacional criou o Programa Radiofónico, “Música de Cabo Verde – Artistas e Intérpretes,” com o objetivo de gravar atuações de novos artistas e grupos,[14] para no ano seguinte, surgirem importantes trabalhos de músicos como Paulino Vieira, Catchás (Carlos Alberto Martins) e Jorge Humberto. Em relação à coladeira, também aparece com uma nova feição, notória nas composições de Manuel de Novas, Ano Novo, Ramiro Mendes, Zézé de Nha Reinalda, Gregório Gonçalves, Frank Mimita e outros, enquanto o funaná começa a urbanizar-se, graças fundamentalmente a contribuição do Catchás, apoiado em instrumentos elétricos e ao grupo musical Bulimundo. A partir de 1978, “a fase de produção de música revolucionária entra em declínio e regista-se a entrada em cena de uma nova modalidade de mornas e coladeiras do compositor Manuel d’ Novas.[15]Os mini-festivais prosseguem, e, em 1980, por ocasião do 5º Aniversário da Independência Nacional, foi realizado um festival não competitivo, que contemplou grupos de outras localidades, além da cidade da Praia. A partir de então, graças ao contacto com outros grupos, o funaná deixa de ser um género regional para ser um género musical nacional. Outras importantes iniciativas levadas a cabo a partir dos anos oitenta foram os concursos “Todo o Mundo Canta,” graças aos quais destacaram grandes nomes como Mirri Lobo, Sãozinha Fonseca, Mário Lúcio Sousa, Jorge Neto, Mário Rui, entre outros. Para além dessas atividades, foram realizados alguns festivais como o Festival Nacional dos Pequenos Cantores, organizado pela OPAD-CV (Organização dos Pioneiros Abel Djassi) e o festival de Vozes Femininas, promovido pela OMCV, nos quais participaram interpretes como Cesária Évora e Celina Pereira.

Ainda na década de 80, partindo da iniciativa de alguns aristas da ilha de São Vicente como Vlú, Vasco Martins, Dany Mariano, Voginha e Tey Santos, surge o festival de Baia das Gatas, hoje em franca projeção, seguida depois por outros em quase todas as ilhas do arquipélago.

Novos estilos musicais e a internacionalização da música cabo-verdiana

A música de Cabo Verde sofreu sempre muitas influências, em grande medida, devido à emigração. Muitos filhos de emigrantes cabo-verdianos que se interessam por esta arte foram os que mais influências sofreram. Esses, foram fundindo diferentes géneros dando origem a novos ritmos. É o caso do grupo Cabo Verde Show; o Gil and Perfect, Splash, etc, que, na década de 1990 se destacaram no contexto da música cabo-verdiana da diáspora. e o Kaká Barbosa. Mais tarde surge a chamada geração Pantera (Orlando Pantera, Tcheka, a Mayra Andrade, o Vadú e a Lura), e mais modernamente pelo zouk e pelo hip-hop.  O primeiro, consiste na música eletrónica de dança formada entre as Antilhas e Paris na segunda metade da década de 70, tendo despontado no cenário cabo-verdiano entre finais da década de 80 e inicio de 90 graças à diáspora. Quanto ao Hip-Hop, idioma de resistência e de reflexão sobre uma condição de exclusão social e de marginalidade social veio dada América do Norte, sendo dos últimos ritmos estrangeiros a entrar para o cenário musical cabo-verdiano, também a partir dos meados dos anos 90.

Relativamente à internacionalização da música cabo-verdiana, a partir da década de 1990 ela começa a incrementar, em grande parte graças ao Bana e a Cesária Évora, dois vultos da música nacional que nessa altura davam passos no sentido de se projetarem no mundo como viria a acontecer, sem esquecer a grande contribuição da Morabeza Record`s de Djunga de Biluca, Black Power e Brandão Records, João Dalomba, Adriano Gonçalves (Bana), Luís Morais, Toi de Bibia, Joaquim Almeida (Morgadinho), entre outros nomes da música cabo-verdiana, cuja caminhada iniciou com a emigração, primeiro para Dakar e depois para a Europa.

No que diz respeito aos instrumentos musicais, “na música de Cabo Verde, utilizam-se tradicionalmente os mais díspares instrumentos: do violino tipicamente europeu à cimboa tipicamente africana. E, pelo meio, um espectro de instrumentos, que engloba o violão, cavaquinho, clarinete, saxofone, piano, e muitos outros.”[16]

Referências bibliográficas e Fontes

As Cantigas de Trabalho, In Fragata. Revida te bordo da TACV, nº 19, março de 1999.

Brito, Margarida (1998).  Os instrumentos Musicais em Cabo Verde; Mindelo: Centro Cultural do Mindelo.  

Cidra, Rui (2008). Produzindo a música de Cabo Verde na diáspora: redes transnacionais, world music e múltiplas formações crioulas, In Comunidade(s) Cabo-verdiana(s): as múltiplas faces da imigração cabo-verdiana, Org. Pedro Góis: ISBN. Lisboa.

Cruz, Lima Eutrópio (1997).  A Música e a Resistência Cultural. In Kultura nº 2, Praia: Ministério da Educação, Ciência e Cultura.

Gonçalves, Carlos e Monteiro, Wladmir. Cabo Verde, 30 anos de Cultura (1975- 2005).

Gonçalves, Carlos (2006). Kab Verd Band, Praia: IANCV.

Lima, Germano( 2002). Boavista, Ilha da Morna e do Landú; Praia: ISE

Monteiro, César (2003).  Manuel d Novas: Música, vida, cabo-verdianidade; Mindelo:

edição do Autor.

Monteiro, Félix (1960). Cantigas de Ana Procópio, In Claridade, nº 9, São Vicente, Cabo Verde.

Monteiro, Vladimir (1998). Les Musiques du Cap Vert. Chandeigne

Nogueira, Gláucia (2005). As bandas de música (I)- Uma história de altos e baixos, In Paralelo 14- jornal Digital.

Nogueira, Gláucia. 25 Anos no palco e no disco. In Kultura nº 2 Praia, Ministério da Educação, Ciência e Cultura.

Ochoa, Raquel (2008). Bana: Uma vida a cantar Cano Verde, Lisboa: Planeta Vivo.

Rocha, Júlio Santos. A Projeção da Música e dos Músicos de origem cabo-verdiana no exterior de Cabo Verde -As redes transnacionais protagonizadas pelos músicos. Dissertação de Licenciatura em Sociologia, Universidade Nova de Lisboa

Ribeiro, José Manuel (2012). Inquietação, memória e afirmação no batuque: música e dança cabo-verdiana em Portugal; Universidade de Aveiro. Tese.

Fontes Primárias

Arquivo Nacional de Cabo Verde- Secretária Geral do Governo (livros manuscritos), Lv. 013, Bando de 1769-1776, fl 17f-18v.

Arquivo Nacional de Cabo Verde- Secretária Geral do Governo (Papeis avulsos), Cx 120.

Arquivo Nacional de Cabo Verde- Administração do Concelho da Praia, Cx 42, Peça 26. Auto de notícia por transgressão devido à realização de reza e cânticos do batuco.

Arquivo Nacional de Cabo Verde- Administração do Concelho da Praia, Cx 29, Peça 4. Informação do Sr. Regedor de São Nicolau Tolentino acerca das consequências das brincadeiras da Tabanca na área daquela Regedoria, Maio/junho, 1946.

Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde, nº 12, 1866, de 24 de março (edital que proíbe o batuque).


[1] Brito, Margarida (1998). Os instrumentos Musicais em Cabo Verde. Mindelo: Centro Cultural Português, p. 13

[2] Monteiro, César (2003). Manuel d Novas: Música, vida, cabo-verdianidade. Mindelo; ed. Autor, p. 34.

[3]  Iden, Ibidem, p. 35

[4]  Idem, Ibidem, p.50-51

[5] Iden, Ibidem, p. 12.

[6] Ribeiro, José Manuel (2012). Inquietação, memória e afirmação no batuque: música e dança cabo-verdiana em Portugal, Universidade de Aveiro. Tese.

[7] Nogueira, Gláucia Batuku de Cabo Verde: Percurso histórico.

[8] Nomedamente, o Bando de 16 de setmebo de 1772, o decreto de 1866 publicado no Boletim Oficial do Governo Geral da Provincia de Cabo Verde e o edital de 1898, proibindo o batuque na cidade da Praia.

[9] Monteiro, Félix (1966).  Cantigas de Ana Procópio, In Claridade- Revista de Artes e Letras, nº 9, citado por   Gonçalves, Carlos, op. Cit. p.  56.

[10] Usadas tradicionalmente por pessoas de diferentes profissões para manter o ritmo do trabalho e que se ajustam ao tipo de trabalho que realizam.

[11] Lima, Germano (2002). Boavista, Ilha da Morna e do Landú; Praia: ISE, p. 267.

[12]Nogueira, Gláucia (2005). As bandas de música (I)- Uma história de altos e baixos, In Paralelo 14- jornal Digital.

[14]Nogueira, Gláucia, op. Cit.

[13]A este propósito, o Padre António Brásio, nos finais do século XVII (1652), aquando da sua visita à então colónia de Cabo Verde, elogia a qualidade da música destas ilhas referindo-se aos clérigos negros da Ribeira Grande como sendo também músicos.

[15]Gonçalves, Carlos e Monteiro, Wladmir, Cabo Verde, 30 anos de Cultura (1975- 2005) p. 103.

[16] Gonlçalves, Carlos( 2006).   Kab  Verd  Band, Praia:  Instituto do Arquivo Nacional, p. 10.

José Silva Évora é historiador, arqueólogo e investigador cabo-verdiano, natural da ilha de Santo Antão. Licenciado em História com especialização em Arqueologia pela Universidade Estatal de Voronezh (Rússia), é também mestre em Estudos Africanos pela Universidade do Porto (Portugal) e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Cabo Verde em parceria com a Universidade de Bordeaux (França). Com uma trajetória dedicada à investigação e ao ensino, tem contribuído com estudos relevantes sobre a história social, económica e patrimonial de Cabo Verde. É autor de diversas publicações científicas e capítulos de livros sobre temas como arqueologia, resistência colonial, história da saúde e preservação do património. Integra o Conselho Consultivo  Internacional do Programa Memória do Mundo da UNESCO e participa ativamente em redes nacionais e internacionais ligadas à história e cultura cabo-verdianas. Sua obra é uma referência importante para o estudo e valorização da memória histórica do país. Atualmente exerce o cargo de Secretário Executivo da Comissão Nacional de Cabo Verde para a UNESCO.

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